quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Como é bom ser criança

...a melhor parte da minha vida foi a infância: não havia cigarros, festas, sexo, dinheiro ou metade da quantidade de amigos que tenho agora; minha liberdade se restringia a dar voltas de skate na praça ao lado da minha casa ou ir ao mercadinho no fim da rua. Ainda assim, era incrível. 

Nas noites chuvosas e frias, enquanto meus pais trabalhavam eu ficava sozinho em casa assistindo Anos Incríveis, de tarde meus primos vinham para assistir Dragon Ball Z. 

O mundo ficava grande quando eu ia para o povoado com meus primos, onde meus avós moravam. Lá corríamos por todo lado, catava mamonas pra vender e jogar na banca, brincávamos com as crianças de lá e passávamos pelo caminho do cachorro morto pra explorar a mata virgem. Já corremos de vaca, quebramos cerca, pegamos pau-de-cinzal pra fazer casa na árvore. 

As viagens em família era a melhor parte: conhecer lugares novos com pessoas que eu amava, nada me deixava mais feliz. Na época que Aurinha (minha vozinha paterna) era viva, ia na sua casa comer e brincar com seu gato, ouvir suas histórias e visitar minha tia que morava com ela. 

Teve muitas coisas ruins na minha infância, mas foi nessa época que eu corria e pulava sem vergonha de nada, me permiti ao máximo ser criança, e que dias belos foram aqueles...


Uma breve despedida

...Já faz anos desde o dia em que a conheci. Fisicamente não havia nada realmente surpreendente nela; algumas sardas no rosto, um sinal de nascença (que ela insistia ter a forma de um coração) no ombro, olhos de um castanho terrivelmente profundos e lábios finos. 

 Ela possuía algumas manias bem estranhas, como: experimentar a ração do cachorro, assustar pombos na rua, colecionar tampinhas de Coca-Cola e guardar coisas que remetessem a alguma lembrança boa (ela tinha uma caixa cheia de bilhetes de viagem e pacotes de bala), ela sabia qual item pertencia a cada lembrança.

 E ela era incrível, prestativa, adorava ler e amava meu jeito esquisito; havia coisas que ela fazia que eu detestava, como jogar coisas aleatórias em mim, contar sobre assuntos simples de forma terrivelmente dramática e, tênue sobre coisas muito sérias. Ela estava longe de ser perfeita, e eu adorava isso. 

 Ela me ensinou três coisas muito importantes, a primeira foi que se apaixonar é sempre uma merda, não há exceções! É sempre horrível ficar pensando o dia todo em alguém, ou ficar esquisito quando aquela pessoa está por perto... Mas, que tem algumas pessoas que valem à pena se apaixonar, mesmo com todas as complicações; pois algumas pessoas sabem respeitar seus sentimentos, mesmo que não haja reciprocidade, há carinho. Não é bom viver com medo de sentir.

 A segunda é que não há nada nesse mundo que mereça nossa mudança, o abandono daquilo que está tão intimamente ligado à nossa personalidade que faz parte de quem somos. É importante se aceitar e ter orgulho de quem você é. Nada é mais doloroso que viver travestindo máscaras. 

 A terceira com certeza é a mais dolorosa. A verdadeira saudade é terrível, pois está sempre acompanhada da morte; na verdadeira saudade você sabe que jamais vai poder encontrar aquela pessoa ao dobrar a esquina ou durante o jantar. Não é como alguém que viaja pra longe, ou um amigo que brigamos. É um adeus forçado e definitivo. 

 Talvez na verdadeira saudade eu tenha aprendido por conta própria a quarta lição: o valor da lembrança. Quando deitamos e fechamos os olhos, aquelas lembranças bobas de conversas aleatórias, cheiros de perfumes e som de risadas valem ouro. Não há nada mais valioso. Não é como uma foto, ou um vídeo, é extremamente pessoal e único. 

 Talvez pareça um tanto mórbido, mas quando eu estou sozinho no escuro, encarando as frias paredes do meu quarto, são as lembranças bobas de todas as pessoas especiais e únicas para mim que mantém meu corpo quente, então, obrigado.


Encontro marcado

...Sempre achei estranho encontros marcados, daquele tipo que todas suas cartas já estão bem apresentadas, não há intenções ocultas, nem pra você, ela ou qualquer outro. Isso sempre me pareceu tirar toda graça da coisa, mas para minha felicidade, estava enganado. 

 Ela se vestia simples, parecia aquelas meninas saídas de filmes de comédia romântica, com um vestido azul e cabelos ainda por pentear. Alguns iriam achar estranho esse conjunto, mas para mim, apenas a deixava mais bela. Três saltos, preocupações de primeiro momento, pinturas no concreto. No começo parecia haver uma barreira intransponível, e embora estivéssemos sós, era grande o espaço entre nós. Porém, meio que de repente, tudo sumiu. 

 As palavras pareciam fluir ainda com dificuldade, mas estavam lá. Aos poucos fui conhecendo aquela garota tão interessante; a ausência de batom em seus lábios, a forma como arrumava os óculos sempre que ele escorregava para frente, olhava para o lado deixando os cabelos caírem em seus olhos da cor da tempestade, e, observando-me meio que de lado, perdida, mas atenta. 

 Embora, ainda que falasse segurando o livro entre os braços como se fosse um baú do tesouro, percebia que não me interessei por ela pelo jeito fofo, ausência de batom ou cabelos estilosos, mas sim pelas outras coisas reveladas no tempo de se tomar algo com gosto de terra, ou de uma caminhada até o conforto de uma bela casa. 

 Naquele mesmo dia, enquanto voltava para casa, lembrava de um trecho do poema de Dante para Beatriz: "Onde quer que eu a veja, tal sucede, e é coisa tão humil que não se crê". E assim seguem esses momentos interessantes da vida, presos no passado, gravados na memória.


O tempo do maço

 Consumir um cigarro leva em média de 3 a 5 minutos. Fazendo um breve cálculo, devo ter demorado 34 minutos para chegar de casa até aqui. Sinto frio, uma cerveja para esquentar seria legal. A vista é bonita, as luzes da cidade multicoloridas brilham na paisagem e refletem no rio, as estrelas mesclam-se ao cenário e tudo parece uma aquarela muito bem pintada. Mentira, na verdade a visão daqui da ponte é meio merda, mas até merda pode parecer bonita com um bom toque de poesia.


 Há dois garotos pescando, estão um pouco afastados. Um usa uma camisa vermelha listrada, o outro está de verde; me olham com desconfiança mas continuam na sua atividade. Acendo mais um. O que disse antes era mentira, a cena não é merda, eu gosto de vim até aqui para pensar, sentir a brisa. Esse lugar me traz muitas memórias, algumas bem felizes, outras nem tanto, mas toda lembrança tem sua utilidade. Por algum motivo aleatório lembro de uma garota de medicina me indagando algo que já não lembro enquanto eu observava o pôr do sol. Ela sempre me pareceu uma pessoa simpática apesar de nunca termos uma conversa que durasse mais que três minutos.

 Observo que na carteira está faltando o cigarro da sorte, talvez tenha ficado entre os três cigarros que dei para meu amigo, talvez eu o tenha fumado sem nem perceber. Pego qualquer um, acendo o isqueiro, trago. A ansiedade é temerosa, você sente literalmente o tempo todo algo te sufocando, você arranha sua garganta, bebe água, deita, levante, faz de tudo, mas acender um cigarro realmente faz aquilo passar. São belos cinco minutos de liberdade. Por outro motivo aleatório lembro que jogar cigarros pelo ralo faz obstruir o encanamento.


 Percebo que meu semblante não é nada agradável, os dois garotos ficam olhando fixamente para mim, eles devem achar que vou me matar, me jogar da ponte. Realmente, quando você para de andar na calçada pode dar essa impressão (até para você mesmo). Faço menção de pular, um deles entrega a vara de pescar para o outro, eu volto ao normal. O garoto para, fica me observando por algum momento. Volta a pescar. Eu volto a fumar. Estou rindo um pouco por dentro da situação. Uma viatura passa à toda velocidade, isso me lembra que deixei o celular em casa. Não quero ser assaltado. Ninguém que vai realmente se matar se preocupa em ser assaltado. O garoto da pescaria não sabia disso.



Cansei de ficar olhando as luzes, hora de voltar.

–Te Achei.

 Quando abro a carteira percebo que o cigarro da sorte estava ali, e de alguma forma eu não o percebi, guardo-o para mais tarde. Enquanto volto para casa fico meio aluado observando tudo à minha volta. Os pais brincando com seus filhos. Isso me faz considerar ter filhos um dia. O preço das fraudas me faz desistir da ideia. Sozinho na nova casa me sinto um pouco solitário; a mesa está cheia de livros, minha cabeça de pensamentos. Há muita coisa que quero falar, mas fica para uma outra hora. Acendo mais cinco minutos. A cerveja acabou. O texto chegou ao fim.

Está frio. Aqui dentro.





Sobre calcinhas temáticas e xícaras vazias

...Cavalos usando máscaras de gás é uma cena no mínimo bizarra, isso se você não for estranho suficiente para achar cômico. Talvez você não seja tão estranho se, sentado na sela estiver o Darth Vader segurando uma espada... isso mesmo, uma espada e não um sabre de luz. “Mas que diabos?”, pensei. Não é realmente algo comum de se observar, o mais estranho é que a tela havia sido pintada à mão, e estava bom! A assinatura da artista se posicionava no canto da obra, e ela em pé atrás de mim.

 “Nunca assisti um pornô que tivesse começado assim”, a frase me despertou do transe, virei o rosto para observa-la, e lá estava: minha camisa caia melhor em seu corpo seminu como jamais ficaria em mim, os cabelos soltos, pretos e exageradamente longos (como ela descrevia) balançavam conforme a garota andava de um lado para outro da cozinha buscando coisas para preparar o café; quando erguia o braço para apanhar algo na parte superior da prateleira, a camisa erguia, deixando à mostra sua calcinha box do Superman. “Como?” questionei, apanhado de surpresa pela observação. Ela me olhou como se eu fosse um completo idiota, deu uma leve risada e continuou, “Sabe, assim! Você aí sentado olhando para minha tela, eu preparando o café. Parecemos aqueles casais de filmes americanos ruins, só falta as crianças dormindo, quase perdendo o horário da escola”. “Ah é? Talvez lar familiares e café sejam o novo lance do momento no mercado pornográfico, você daria uma ótima roteirista, visionária! ”. Ela me fitou por alguns segundos, parecia observar se eu falava sério ou se estava apenas brincando, deu de ombros, fez uma cara de orgulho e voltou-se para o fogão, “aí está, talvez eu deva ser uma roteirista de filmes pornô no futuro.”. Ficou novamente na ponta dos pés para pegar as xícaras. Só duas coisas passavam em minha mente: “Homem-Aranha é infinitas vezes melhor que Superman” e “eu deveria dar essa camisa para ela”. Voltou para a mesa e sentou-se bem ao meu lado, seus ombros cerravam nos meus e os lábios faziam biquinho para soprar o café quente.

 Ao meu lado estava a garota que eu amava, alguns centímetros à minha frente a xícara de café quente em cima da velha mesa de madeira, do lado de fora o cachorro latia e o vento balançava as roupas no varal. Nem parecia que tivemos na noite anterior uma das piores discussões do nosso relacionamento, mas, naquele momento tudo estava bem.

Ela deu um longo gole, colocou a xícara sobre a mesa, deitou em meu ombro e segurou forte minha mão, levou ao seu rosto e ficou fazendo carinho. Logo sua expressão mudou para preocupação, afundou minha mão entre seus seios e me observou de forma ponderada. “Será que daqui há alguns anos vamos continuar assim? Digo, numa casinha normal, tomando café da manhã, você fumando seus cigarros antes de levar o cachorro para passear, talvez até tenha mesmo alguma criança para acordar”. Acariciei seus cabelos, a abracei o mais forte possível, disse como daria tudo certo, que ela estudaria e entraria numa universidade legal, e assim que voltasse de São Paulo iríamos continuar juntos, e pedi para ela tirar essa ideia tola sobre eu começar a fumar. Fiz todas as promessas que só um adolescente é capaz de acreditar ser possível cumprir. Choramos um pouco, iria sentir saudades. Recebi um beijo com gosto de café.

 Ela se foi, mandei aquela camisa para ela pelo correio, sem necessidades escrevíamos cartas (apesar de continuarmos nos comunicando diariamente por ligações e mensagens de texto); ela escrevia como abraçava minha camisa quando sentia saudades, que conheceu novos amigos e estava se divertindo, mas preferia que eu estivesse ali com ela. Aquela foi a última carta que recebi, a queimei junto com os pedaços rasgados da camisa e das cartas que escrevi para ela que recebi pelo correio. Aquele dia foi o primeiro que fumei um cigarro, e nisso ela acertou, pois não foi o último.

 Todas as promessas sumiram junto com as cinzas, e matei os vestígios dela dentro de mim em longas bebedeiras, saídas com pessoas aleatórias que também me usavam para esquecer alguém; pensei que jamais a esqueceria, que a amaria para sempre mesmo depois de tudo. Hoje não sou capaz de verter uma lágrima por ela, e nem ela por mim; não sou a mesma pessoa daqueles tempos, na realidade, estou completamente diferente, mas moldado pelas experiências. Às vezes, é assim que termina o amor, uma pedra jogada em um oceano de ressentimento e esquecimento.



Como é bom ser criança

...a melhor parte da minha vida foi a infância: não havia cigarros, festas, sexo, dinheiro ou metade da quantidade de amigos que tenho agor...