...Sempre achei estranho encontros marcados, daquele tipo que todas suas cartas já estão bem apresentadas, não há intenções ocultas, nem pra você, ela ou qualquer outro. Isso sempre me pareceu tirar toda graça da coisa, mas para minha felicidade, estava enganado.
Ela se vestia simples, parecia aquelas meninas saídas de filmes de comédia romântica, com um vestido azul e cabelos ainda por pentear. Alguns iriam achar estranho esse conjunto, mas para mim, apenas a deixava mais bela. Três saltos, preocupações de primeiro momento, pinturas no concreto. No começo parecia haver uma barreira intransponível, e embora estivéssemos sós, era grande o espaço entre nós. Porém, meio que de repente, tudo sumiu.
As palavras pareciam fluir ainda com dificuldade, mas estavam lá. Aos poucos fui conhecendo aquela garota tão interessante; a ausência de batom em seus lábios, a forma como arrumava os óculos sempre que ele escorregava para frente, olhava para o lado deixando os cabelos caírem em seus olhos da cor da tempestade, e, observando-me meio que de lado, perdida, mas atenta.
Embora, ainda que falasse segurando o livro entre os braços como se fosse um baú do tesouro, percebia que não me interessei por ela pelo jeito fofo, ausência de batom ou cabelos estilosos, mas sim pelas outras coisas reveladas no tempo de se tomar algo com gosto de terra, ou de uma caminhada até o conforto de uma bela casa.
Naquele mesmo dia, enquanto voltava para casa, lembrava de um trecho do poema de Dante para Beatriz: "Onde quer que eu a veja, tal sucede, e é coisa tão humil que não se crê". E assim seguem esses momentos interessantes da vida, presos no passado, gravados na memória.

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