quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Sobre calcinhas temáticas e xícaras vazias

...Cavalos usando máscaras de gás é uma cena no mínimo bizarra, isso se você não for estranho suficiente para achar cômico. Talvez você não seja tão estranho se, sentado na sela estiver o Darth Vader segurando uma espada... isso mesmo, uma espada e não um sabre de luz. “Mas que diabos?”, pensei. Não é realmente algo comum de se observar, o mais estranho é que a tela havia sido pintada à mão, e estava bom! A assinatura da artista se posicionava no canto da obra, e ela em pé atrás de mim.

 “Nunca assisti um pornô que tivesse começado assim”, a frase me despertou do transe, virei o rosto para observa-la, e lá estava: minha camisa caia melhor em seu corpo seminu como jamais ficaria em mim, os cabelos soltos, pretos e exageradamente longos (como ela descrevia) balançavam conforme a garota andava de um lado para outro da cozinha buscando coisas para preparar o café; quando erguia o braço para apanhar algo na parte superior da prateleira, a camisa erguia, deixando à mostra sua calcinha box do Superman. “Como?” questionei, apanhado de surpresa pela observação. Ela me olhou como se eu fosse um completo idiota, deu uma leve risada e continuou, “Sabe, assim! Você aí sentado olhando para minha tela, eu preparando o café. Parecemos aqueles casais de filmes americanos ruins, só falta as crianças dormindo, quase perdendo o horário da escola”. “Ah é? Talvez lar familiares e café sejam o novo lance do momento no mercado pornográfico, você daria uma ótima roteirista, visionária! ”. Ela me fitou por alguns segundos, parecia observar se eu falava sério ou se estava apenas brincando, deu de ombros, fez uma cara de orgulho e voltou-se para o fogão, “aí está, talvez eu deva ser uma roteirista de filmes pornô no futuro.”. Ficou novamente na ponta dos pés para pegar as xícaras. Só duas coisas passavam em minha mente: “Homem-Aranha é infinitas vezes melhor que Superman” e “eu deveria dar essa camisa para ela”. Voltou para a mesa e sentou-se bem ao meu lado, seus ombros cerravam nos meus e os lábios faziam biquinho para soprar o café quente.

 Ao meu lado estava a garota que eu amava, alguns centímetros à minha frente a xícara de café quente em cima da velha mesa de madeira, do lado de fora o cachorro latia e o vento balançava as roupas no varal. Nem parecia que tivemos na noite anterior uma das piores discussões do nosso relacionamento, mas, naquele momento tudo estava bem.

Ela deu um longo gole, colocou a xícara sobre a mesa, deitou em meu ombro e segurou forte minha mão, levou ao seu rosto e ficou fazendo carinho. Logo sua expressão mudou para preocupação, afundou minha mão entre seus seios e me observou de forma ponderada. “Será que daqui há alguns anos vamos continuar assim? Digo, numa casinha normal, tomando café da manhã, você fumando seus cigarros antes de levar o cachorro para passear, talvez até tenha mesmo alguma criança para acordar”. Acariciei seus cabelos, a abracei o mais forte possível, disse como daria tudo certo, que ela estudaria e entraria numa universidade legal, e assim que voltasse de São Paulo iríamos continuar juntos, e pedi para ela tirar essa ideia tola sobre eu começar a fumar. Fiz todas as promessas que só um adolescente é capaz de acreditar ser possível cumprir. Choramos um pouco, iria sentir saudades. Recebi um beijo com gosto de café.

 Ela se foi, mandei aquela camisa para ela pelo correio, sem necessidades escrevíamos cartas (apesar de continuarmos nos comunicando diariamente por ligações e mensagens de texto); ela escrevia como abraçava minha camisa quando sentia saudades, que conheceu novos amigos e estava se divertindo, mas preferia que eu estivesse ali com ela. Aquela foi a última carta que recebi, a queimei junto com os pedaços rasgados da camisa e das cartas que escrevi para ela que recebi pelo correio. Aquele dia foi o primeiro que fumei um cigarro, e nisso ela acertou, pois não foi o último.

 Todas as promessas sumiram junto com as cinzas, e matei os vestígios dela dentro de mim em longas bebedeiras, saídas com pessoas aleatórias que também me usavam para esquecer alguém; pensei que jamais a esqueceria, que a amaria para sempre mesmo depois de tudo. Hoje não sou capaz de verter uma lágrima por ela, e nem ela por mim; não sou a mesma pessoa daqueles tempos, na realidade, estou completamente diferente, mas moldado pelas experiências. Às vezes, é assim que termina o amor, uma pedra jogada em um oceano de ressentimento e esquecimento.



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