quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Uma breve despedida

...Já faz anos desde o dia em que a conheci. Fisicamente não havia nada realmente surpreendente nela; algumas sardas no rosto, um sinal de nascença (que ela insistia ter a forma de um coração) no ombro, olhos de um castanho terrivelmente profundos e lábios finos. 

 Ela possuía algumas manias bem estranhas, como: experimentar a ração do cachorro, assustar pombos na rua, colecionar tampinhas de Coca-Cola e guardar coisas que remetessem a alguma lembrança boa (ela tinha uma caixa cheia de bilhetes de viagem e pacotes de bala), ela sabia qual item pertencia a cada lembrança.

 E ela era incrível, prestativa, adorava ler e amava meu jeito esquisito; havia coisas que ela fazia que eu detestava, como jogar coisas aleatórias em mim, contar sobre assuntos simples de forma terrivelmente dramática e, tênue sobre coisas muito sérias. Ela estava longe de ser perfeita, e eu adorava isso. 

 Ela me ensinou três coisas muito importantes, a primeira foi que se apaixonar é sempre uma merda, não há exceções! É sempre horrível ficar pensando o dia todo em alguém, ou ficar esquisito quando aquela pessoa está por perto... Mas, que tem algumas pessoas que valem à pena se apaixonar, mesmo com todas as complicações; pois algumas pessoas sabem respeitar seus sentimentos, mesmo que não haja reciprocidade, há carinho. Não é bom viver com medo de sentir.

 A segunda é que não há nada nesse mundo que mereça nossa mudança, o abandono daquilo que está tão intimamente ligado à nossa personalidade que faz parte de quem somos. É importante se aceitar e ter orgulho de quem você é. Nada é mais doloroso que viver travestindo máscaras. 

 A terceira com certeza é a mais dolorosa. A verdadeira saudade é terrível, pois está sempre acompanhada da morte; na verdadeira saudade você sabe que jamais vai poder encontrar aquela pessoa ao dobrar a esquina ou durante o jantar. Não é como alguém que viaja pra longe, ou um amigo que brigamos. É um adeus forçado e definitivo. 

 Talvez na verdadeira saudade eu tenha aprendido por conta própria a quarta lição: o valor da lembrança. Quando deitamos e fechamos os olhos, aquelas lembranças bobas de conversas aleatórias, cheiros de perfumes e som de risadas valem ouro. Não há nada mais valioso. Não é como uma foto, ou um vídeo, é extremamente pessoal e único. 

 Talvez pareça um tanto mórbido, mas quando eu estou sozinho no escuro, encarando as frias paredes do meu quarto, são as lembranças bobas de todas as pessoas especiais e únicas para mim que mantém meu corpo quente, então, obrigado.


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